
Um político da base governista em busca de apoio popular para seu mais recente projeto de lei.
Ouço uma pessoa dizer, como tantas vezes já ouvi dizerem, que o problema do brasileiro é a falta de engajamento político. Falta envolvimento e consciência política, falta educação neste sentido e falta atenção às questões políticas fundamentais — é o que dizem.
Eu discordo. Por exemplo, os suíços não são engajados. O mesmo vale para os finlandeses, os japoneses, os sul-coreanos, os dinamarqueses. Eu não os vejo em passeatas, nas ruas. Não os vejo abalados por causa da política. Eu os vejo trabalhando e colocando em prática os valores que eles consideram fundamentais para a realização de coisas boas para sua família, sua empresa, sua cidade, seu país. O máximo de engajamento político que eles se permitem é o de exigir que seus representantes defendam os valores para os quais foram eleitos, que, enfim, trabalhem e respeitem esses valores, exatamente como faz qualquer cidadão.
O problema brasileiro é precisamente o contrário do que se diz. Envolvemo-nos excessivamente com questões políticas. O que torna a política um lodaçal é sua capacidade de ignorar os princípios e atividades que constituem a vida do cidadão comum e de concentrar-se em ações que dizem respeito apenas ao próprio sistema político. Logo, todos estarão envolvidos em questões essenciais para a sociedade brasileira, como a renúncia iminente do presidente do Senado e a declaração absolutamente descabida daquela ministra.
Aos políticos falta engajamento social, envolvimento com as questões elementares do dia-a-dia. Ocorre que, quando isso se esboça, o resultado é sempre o mesmo: encarar a realidade é trampolim para lucro extra, como se para os políticos isso fosse uma necessidade justificada.
Escolha qualquer elemento ou fato político recente e observe-o à luz destas afirmações. CPIs, processos, ameaças de cassação (que raramente frutificam), projetos de lei, a bancada governista, a oposição, as declarações de ministros, de deputados e senadores e do próprio presidente. Este conjunto de elementos e personagens constitui um universo particular, absolutamente alheio a tudo que acontece fora da Praça dos Três Poderes. Tem-se a impressão de que essas pessoas não têm problemas de má digestão, não lêem jornais, não têm filhos e não vão ao cinema. Na TV, rodeadas de microfones, essa tese será subliminarmente sustentada com firmeza inquestionável. Em que planeta essas pessoas vivem?
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